Por: Luciene Ribeiro
Viver, encontra-se, desenvolver-se na sociedade moderna constitui um desafio constante atravessado por um “devir” paradoxalmente a um eu, a um nosotros (nós os outros). Essa interconexão de eus culturais enriquece o cenário cotidiano, mas por vezes, confunde, desestabiliza a maneira de viver que já não segue um padrão social pré-estabelecido.
“Os modos de vida produzidos pela modernidade nos desvencilharam de todos os tipos tradicionais de ordem social, de uma maneira que não tem precedentes. Sobre o plano extensional, as transformações serviram para estabelecer formas de interconexão social que cobrem o globo; em termos intensionais, elas vieram a alterar algumas das mais íntimas e pessoais características de nossa existência cotidiana.” (Giddens 1991, pág. 14)
Para lançar o debate acerca do entrelaçamento das culturas, os regressos e evoluções da modernidade, García Canclini (1997) propõe não um livro, mas uma cidade “na qual se entra pelo caminho do culto, do popular ou do massivo, dentro, tudo se mistura...” (p. 20). Jean Rouch, autor do filme Eu, um Negro, faz um recorte da cidade de Abidjan para descrever o cotidiano de um negro no bairro de Treichville.
Diante de tantas transformações pelas quais a cidade vem passando a cada dia, Canclini (1997) questiona:
“Como estudar os ardis com que a cidade tenta conciliar tudo que chega, prolifera e com que tenta conter a desordem: A barganha do provinciano com o transnacional, os engarrafamentos de carros diante das manifestações de protestos, a expansão do consumo diante dos desempregados, os duelos entre mercadorias e comportamentos vindos de todas as partes?” (p. 20)
É necessariamente nestes dois últimos tópicos que se encontra o personagem do filme em questão: Edward G. Robinson é um imigrante da Nigéria que vive em Treichville. Ele compõe a esfera dos desempregados, considerada por Jean Rouch “uma doença das novas cidades africanas”.
O filme começa com um relato do autor sobre “essa juventude prensada entre a tradição e a tecnologia, entre o Islamismo e o álcool que não renunciou às suas crenças, mas cultua os ídolos modernos do boxe e do cinema”. Assim também Canclini (1997) inicia o texto Culturas Híbridas, Poderes Oblíquos, destronando os opostos convencionais (subalterno/hegemônico, tradicional/moderno) para tentar entender “as novas modalidades de organização da cultura, de hibridação das tradições de classes, etnias e nações...” (p. 283)
Iludido com a “prosperidade” do mundo moderno, Edward G. Robson veio para Abidjan em busca de dinheiro, mas se arrependeu “se soubesse que em Abidjan era assim, não teria vindo”. Assim como ele, todos os dias jovens migram de sua terra natal em busca de uma nova vida no “local do desenvolvimento”. A população urbana cresce desordenadamente, causando, dentre outras mazelas, um grande contingente “marginal”, que vive em condições subumanas. Essa grande demanda de pessoas oriundas de diversos lugares contribui não só para o chamado “inchaço urbano”, mas também para o cruzamento de culturas, assim, para Canclini, (1997, p. 285), “sem dúvida, a expansão urbana é uma das causas que intensificam a hibridação cultural”.
Num mundo em que o mercado regula a vida através de sua mão invisível, o dinheiro é o “senhor dos homens”, é em busca dele que os nigerianos de Treichville batalham todos os dias a procura de trabalho. Como não têm qualificação, resta-lhes o subemprego: estivadores, carregadores, taberneiros, vendedores, etc. Edward G. Robson se queixa de sua vida difícil e de uma forma bem determinista trava uma luta diária com a carga no porto.“Ser pobre é uma merda, não tenho dinheiro nem pra pagar uma prostituta. Os outros são ricos, vestem túnicas, moram em edifícios... nós fomos feitos para isso – para os sacos”.
Questionado por Canclini (1997) sobre a estética moderna, Bourdieu argumenta
“o consumo exclusivo é uma prática de diferenciação nas sociedades modernas, já que não há superioridade de títulos de nobreza e nem de sangue; assim, o consumo se torna uma área fundamental para instaurar e comunicar diferenças”
Canclini (1997, p.288) retrata essa idéia ao abordar a esfera pública como um palco, onde o mercado dirige a cena cotidiana.
“...a esfera pública é ocupada por agentes que calculam tecnicamente suas decisões e organizam tecnoburocraticamente o atendimento às demandas, segundo critérios de rentabilidade e eficiência... O mercado reorganiza o mundo público como palco do consumo e dramatização dos signos de status”.
Diante de uma juventude pouco ou com nenhuma preocupação com o fazer político e de um mundo mediado pelo audiovisual, os movimentos sociais, as passeatas, as manifestações na rua têm quase nenhuma expressão. A fala do personagem central do filme Eu, um Negro, traduz essa anestesia social. “Isso é uma passeata, eles lutam por melhores salários, e eu que nem tenho salário... política e sociedade... eu não voto em ninguém... sou sozinho”.
Para fundamentar este raciocínio, Canclini (1997) cita Lechner
“Habitar as cidades, diz Norbert Lechner em seu estudo sobre a vida cotidiana em Santiago, tornou-se “isolar um espaço próprio”. E continua...”As passeatas, os atos nas ruas e praças são ocasionais ou não têm a menor eficácia. A perda do sentido da cidade está relacionada diretamente às dificuldades dos partidos políticos e sindicatos para convocar trabalhos coletivos não-rentáveis ou de duvidoso retorno econômico.” (p. 286 a 287)
Sentido, essa palavra parece acompanhar Edward G. Robinson, mesmo sem citá-la, ele fica a todo instante procurando um para sua vida. Seu dia se resume em trabalhar no porto como carregador, quando há cargas, descansar nas calçadas, jogar cartas e habitar uma pequena casa com mais 19 conterrâneos, a chamada Fraternidade Nigeriana. Mal tem dinheiro pra se alimentar e é constantemente discriminado por não tê-lo. Mesmo com tantas dificuldades, ele tem sonhos “Um dia vou ser boxeador profissional, ter uma mulher, uma casa e um carro”.
Sem respostas para todas as perguntas que lhes perturbam o cotidiano, personagens como Edward seguem suas vidas sem conseguir entender esse processo moderno e suas imbricações sócio-político-econômico-culturais.
“A modernidade revela-se enigmática em seu cerne e parece não haver maneira deste estigma poder ser “superado”. Fomos deixados com perguntas que uma vez pareceram ser repostas, e devo argumentar ulteriormente que não são apenas os filósofos que se dão conta disto. Uma consciência geral deste fenômeno se filtra em ansiedades cuja pressão todos sentem.” (Giddens 1991, pág. 55)
O processo de hibridação vai acontecendo no cotidiano de Treichville, o bairro recebe grandes cargas no porto, vindas de todas as partes, o que já denota uma economia globalizada, interligada com o mundo. Os imigrantes chegam de lugares distintos, cada um com seus costumes, sua cultura, seu modo de viver. Ali, na cidade, se verifica a intensidade de hibridação cultural.
Lavina Ribeiro (2004) tenta explicar esse universo diverso do indivíduo.
“O indivíduo é um ser dotado de linguagem, pensamento e ação por meio dos quais ele internaliza significados e valores seletivamente organizados numa tradição de conhecimentos e práticas, que asseguram a continuidade das instituições, formações e formas culturais relativas ao “seu modo total de vida”, sobre as quais ele, simultânea e correlatamente, realiza práticas construtivas da sua experiência social” (p. 64)
Quando se juntam vários indivíduos, multiplica-se a linguagem, o pensamento, a ação numa hibridação de significados. É nessa esfera que se encontra o nosso personagem.
Edward G. Robinson freqüenta a missão e a mesquita “sou católico por parte de pai e mãe, mas na verdade, sou mulçumano. Vou à missa por causa das mulheres” Depois de ir à missão, ele vai a Mesquita e pede a Deus para lhe dar dinheiro.
Para se divertir, ele vai ao bar tradicional do bairro, ali se dança as músicas da moda, contudo, por viver em um redemoinho de culturas, Edward sente necessidade de encontrar-se, de reviver a sua cultura, a cultura de seu povo, assim, ele freqüenta a Goumbé; Jean Rouch faz um relato deste lugar “A Goumbé é a verdadeira família desses estrangeiros, ali coexistem os sonhos de faroeste e os ritmos tradicionais. É o único momento onde somos nós mesmos, entre os nossos. Na Goumbé, eles são reis e rainhas”. Na Goumbé Edward G. Robinson se diverte e seu amigo ganha o grande concurso, sendo proclamado rei, “Essa é a nossa dança, é disso que a gente gosta... viva os nigerianos”.
Barbeiro (2008) explica que essa mistura de culturas vai desenhar um novo perfil da cidade, onde a classe popular vai desenvolver suas próprias formas de representação e atuação urbana.
“A migração e as novas fontes e modos de trabalho trazem consigo a hibridação das classes populares, uma nova forma de se fazerem presentes na cidade. Uma massa que não é definível a partir da estrutura social tradicional e que desarticula as formas tradicionais de participação e representação. A presença dessa massa vai afetar o conjunto da sociedade urbana, suas formas de vida e pensamento, e logo também a própria fisionomia da cidade.”
Acredito sim que a imigração é um fator que contribui com a mescla de culturas, contudo, olhando do ponto de vista do personagem, não consigo visualizar essa hibridação como primeira leitura, acho que ela existe, é importante, tem seu legado, colabora para novas perspectivas de entendimento de um mundo moderno, sem identidade única, no entanto, concordo com Canclini (1997) quando afirma, no início do seu livro Culturas Híbrida, que
“A modernidade é vista então como uma máscara. Um simulacro urdido pelas elites e pelos aparelhos estatais, sobretudo os que se ocupam da arte e da cultura, mas que por isso mesmo os torna irrepresentativos e inverossímeis. As oligarquias liberais do final do século XIX e início do XX teriam feito de conta que constituíam Estados, mas apenas organizaram algumas áreas da sociedade para promover um desenvolvimento subordinado e inconsciente; fizeram de conta que formavam culturas nacionais e mal construíram culturas de elite, deixando de fora enormes populações indígenas e camponesas que evidenciam sua exclusão em mil revoltas e na migração que “transtorna” as cidades”.
(p. 25)
Que modernidade é essa que não consegue incluir as minorias? Que simplesmente aceita essa desigualdade desenfreada? Que se disfarça de popular para exercer seu projeto demagógico? É a modernidade das sofisticadas tecnologias, da desterritorialização do conhecimento, da não-identidade, mas do indivíduo. Essa situação não é exclusiva dos negros em Abidjan. Fortaleza, Capital do Ceará, também faz parte dessa modernidade marcada pelo consumo supérfluo, pelos meninos invisíveis, pelos homens “transformados” em “burros” que levam nas costas o “lixo social”. Nesse caso, o recorte que fiz foi de uma cena na Av. Bezerra de Menezes.
O sinal fechou, eles aparecem. Da janela dos carros, talvez não se consiga enxergar a realidade daqueles meninos. Vistos como a mazela social da modernidade, eles são personagens à margem. Do conforto do conversível ao sofá da sala, olha-se pela tela o cotidiano mediado. Diante dos meninos, que moram na rua ou em pequenos barracos, verdadeiros arranha-céus se erguem diariamente. Quem são esses espectros que habitam as ruas? Mendigos, limpadores de carros, vendedores ambulantes nos sinais, pedintes nos coletivos e terminais, enxotados dos shoppings e restaurantes para não incomodar os clientes.
Fortaleza, a cidade da luz, está repleta desta escuridão. Não vê, passar reto, fazer de conta que não existe ninguém ali na calçada sobre o papelão, com o olhar esticado lhe pedindo uma mão, são práticas sociais ante os seres invisíveis. Visíveis somente quando enquadrados no sensacionalismo imagético, onde, muitas vezes, são ultrajados em seus direitos de resposta e abordados de maneira vil em função da grande audiência. A tela apreende o espectador, mas o cotidiano passa despercebido.
Outro dia, em pleno engarrafamento, na Av. Bezerra de Menezes, um homem puxava um daqueles carrinhos de madeira, cheio de “lixo” (material para reciclar, acredita-se), cena comum na cidade, porém o que chamava atenção é que no meio do rejeito da sociedade havia uma criança, sentada, com o olhar fixo em outra no interior de um BMW. Nesta troca de olhares, aparentemente tão perto... uma imensidão. Ao abrir o sinal, a distância física denuncia a subjetiva, com menor intensidade, é claro.
Este breve recorte diz muito de uma cultura excludente, de uma modernidade urdida como uma representação de desenvolvimento. Subordinada e inconsciente cresce a população periférica sob a égide de comunidades, um cenário perfeito para a aplicação de políticas demagogas, preocupadas, sobretudo, com a sobrevivência da superestrutura, não se importando com o vulto humano que deixará para trás, distante, no próximo sinal.
É assim que muitos Edwards se sentem: discriminados, excluídos, sem oportunidades de crescimento, desempregados, sem moradia digna, sem alimentação adequada, sem acesso à educação de qualidade, sem perspectivas de futuro e tantas outras deficiências que não vão caber no papel, carregando nas costas uma carga que ele não construiu sozinho. Olhando para um novo arranha-céu em construção, Edward G. Robson constata: “Sempre há alguma coisa nova, alguma coisa maravilhosa, mas para mim, nada”.
Canclini (2006) questiona como encontrar em meio a esta hibridação as teorias que contribuam com um universo mais explícito e que mesmo no campo das diferenças, e, sobretudo nelas, encontrem-se as perdas e ganhos ao ser um eu híbrido.
“Como continuar a construir princípios teóricos e procedimentos metodológicos que nos ajudem a tornar este mundo mais traduzível, ou seja, convivível em meio a suas diferenças, e a aceitar o que cada um ganha e está perdendo ao hibrida-se.”
Para expressar esses dilemas, Canclini (2006) cita o poema de Ferreira Gullar, musicado por Raimundo Fagner no disco homônimo:
Traduzir-se
Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo
Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão
Uma parte de mim pesa, pondera
Outra parte delira
Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte linguagem
Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de vida e morte
Será arte?
Penso que o que deveria hibridar-se seriam a sensibilidade dos poetas, o olhar dos artistas, a prática e reflexão das pessoas que se doam por uma humanidade melhor e mais consciente do que significa ser humano.
Referência Bibliográfica
GARCÍA CANCLINI, Nestor – Culturas Híbridas: Estratégias para Entrar e Sair da Modernidade; tradução: Heloisa Pezza Cintrão, Regina Lessa – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1997 e 2006. (Ensaios Latino-americanos, 1)
GIDDENS, Anthony. – As Consequências da Modernidade. São Paulo: UNESP, 1991
MARTIN BARBEIRO, Jesus – Dos Meios as Mediações. Comunicação, Cultura e Hegemonia. 5ª Edição, Rio de Janeiro. Editora UFRJ, 2008
RIBEIRO, Lavina M. – Comunicação e Sociedade: Cultura, Informação e Espaço Público. Rio de Janeiro. E-Papers Serviços Editoriais, 2004.
ROUCH, Jean – Eu, um Negro (filme).
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