quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Morte

Quando a pessoa morre, seu espírito tem que seguir pelo caminho dos Dowari, até chegar à maloca dos Dowari, num lugar muito alto, numa serra muito distante.
O espírito de quem morreu deve caminhar muito. A estrada é cheia de perigos e sofrimento. Antes, quando Kambiô morreu, não era assim. As pessoas morriam, mas ficavam nas malocas, reviviam com os cuidados dos vivos. Por causa da velha rabugenta que xingou kambiô, a morte passou a ser definitiva.
O espírito chega a um rio muito largo, impossível de cruzar. Quando se aproxima da margem das águas, há uma ponte, um tronco para atravessar o rio, que vem por si mesmo para fazer a alma passar para o outro lado.
A ponte é um arco-íris, um Botxatô, uma cobra que se estende no caminho do espírito, para ajudar, prestativa. A alma, ao descortinar as águas assustadoras que deve transpor, grita apavorada. O arco-ìris, a cobra Botxatô brilhante, colorida, vem de mansinho, encosta na margem, roçando o espírito.
A alma pisa a ponte mágica estendida, a cobra acolhedora, cruza o rio, vai embora para as alturas, para o céu.
O caminho aterrorizante continua para além do rio. Quando o espírito está protegido pelos pajés que estão curando na aldeia, consegue ultrapassar todos os perigos e chega ao reino dos Dowari. Quando o espírito do morto está quase entrando no reino dos Dowari, na serra do céu, tem que ficar debaixo de um pé de urucum.
Fica chorando como um nenenzinho a altas horas da noite. A alma-criança é acolhida pela sua tia, que lhe tolhe as extremidades do corpo... e o espírito fica bonito outra vez.

(Texto extraído do Livro Terra Grávida de Bete Mindilin)

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