segunda-feira, 4 de maio de 2009

Sem Sinal

O sinal fechou, eles aparecem. Da janela dos carros, talvez não se consiga enxergar a realidade daqueles meninos. Vistos como a mazela social da modernidade, eles são personagens à margem. Do conforto do conversível ao sofá da sala, olha-se pela tela o cotidiano mediado. Diante dos meninos, que moram na rua ou em pequenos barracos, verdadeiros arranha-céus se erguem diariamente. Quem são esses espectros que habitam as ruas? Mendigos, limpadores de carros, vendedores ambulantes nos sinais, pedintes nos coletivos e terminais, enxotados dos shoppings e restaurantes para não incomodar os clientes.
Fortaleza, a cidade da luz, está repleta desta escuridão. Não vê, passar reto, fazer de conta que não existe ninguém ali na calçada sobre o papelão, com o olhar esticado lhe pedindo uma mão, são práticas sociais ante os seres invisíveis. Visíveis somente quando enquadrados no sensacionalismo imagético, onde, muitas vezes, são ultrajados em seus direitos de resposta e abordados de maneira vil em função da grande audiência. A tela apreende o espectador, mas o cotidiano passa despercebido.
Outro dia, em pleno engarrafamento, na Av. Bezerra de Menezes, um homem puxava um daqueles carrinhos de madeira, cheio de “lixo” (material para reciclar, acredita-se), cena comum na cidade, porém o que chamava atenção é que no meio do rejeito da sociedade havia uma criança, sentada, com o olhar fixo em outra no interior de um BMW. Nesta troca de olhares, aparentemente tão perto... uma imensidão. Ao abrir o sinal, a distância física denuncia a subjetiva, com menor intensidade, é claro.
Este breve recorte diz muito de uma cultura excludente, de uma modernidade urdida como uma representação de desenvolvimento. Subordinada e inconsciente cresce a população periférica sob a égide de comunidades, um cenário perfeito para a aplicação de políticas demagogas, preocupadas, sobretudo, com a sobrevivência da superestrutura, não se importando com o vulto humano que deixará para trás, distante, no próximo sinal.
Lu Ribeiro

domingo, 3 de maio de 2009

Bem, parece mesmo que este blog estava esperando por um texto que levasse uma imagem tão viva quanto essa figura do Teatro Brasileiro: Augusto Boal. Que palavras e imagens escolher para falar desse mestre dramaturgo, que dedicou sua vida na busca pela transformação da sociedade através de seus atores: Os cidadãos, os espect-atores, os Protagonistas Sociais. Estes personagens foram constantemente construídos em sua pesquisa e trabalho teatral, que criou o Teatro do Oprimido, tendo como foco principal o Teatro Invisível. Para Boal, todos somos atores, capazes de transformar o cotidiano, de sair da anestesia. Perdemos nesta madrugada do dia 02 de maio um Espetáculo de Pessoa, um grande e inesquecível Ator Social, contudo, sua obra permanece em nós, suas idéias reverberam no mundo inteiro como um ser que imortalizou o Teatro Brasileiro de maneira autêntica e, sobretudo, atenta aos problemas nacionais. Com o Teatro Invisível, ele tornou visível o que todos nós olhamos e não enxergamos: o dia-a-dia do oprimido e, de que maneira, este pode intervir e modificar esta realidade:
"1° transformar o espectador em protagonista da ação dramática, o objeto em sujeito, a vítima em agente, o morto em vivo, o consumidor em produtor; 2° através dessa transformação, ajudar o espectador a preparar ações reais que o conduzam à própria libertação, pois a liberação do oprimido será obra do próprio oprimido, jamais será outorgada por seu opressor."(Boal)